quarta-feira, 28/10/2026

Explorando as Três Facetas do Burnout entre Mulheres

Na última terça-feira, abordei a complexidade dos fatores de risco que tornam o AVC em mulheres uma questão crítica e muitas vezes negligenciada. Hoje, o foco se volta para outro aspecto preocupante da saúde…

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Na última terça-feira, abordei a complexidade dos fatores de risco que tornam o AVC em mulheres uma questão crítica e muitas vezes negligenciada. Hoje, o foco se volta para outro aspecto preocupante da saúde feminina: o burnout. Durante o evento Neuro 2026, a psicóloga e escritora Ana Luiza Novis trouxe à tona essa temática, ressaltando a necessidade de um olhar mais amplo sobre a questão. “O burnout é, sem dúvida, um fenômeno ligado ao ambiente de trabalho, mas, ao falarmos de mulheres, é crucial reconhecer que a sobrecarga começa muito antes da entrada no mercado profissional”, declarou.

Novis detalhou como essa condição afeta as mulheres em três esferas interligadas: social, institucional e política. Na esfera social, ela destacou as pressões que levam as mulheres a assumirem uma série de responsabilidades que muitas vezes não são reconhecidas. “Elas sustentam um emaranhado de expectativas, que inclui cuidar da família, organizar a casa e resolver problemas, tudo isso frequentemente sob o peso da culpa e da injustiça de gênero”, observou. Dados do IBGE corroboram essa realidade, mostrando que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas por semana a tarefas domésticas, em comparação com apenas 11 horas dos homens.

Entrando na dimensão institucional, Novis apontou que as organizações falham em considerar as necessidades de cuidado. “Os ambientes de trabalho são estruturados de forma a ignorar a realidade de quem tem filhos ou dependentes. A expectativa é que os funcionários atuem como se suas obrigações familiares não existissem”, criticou. Essa cultura de disponibilidade constante, combinada com metas excessivas e a falta de reconhecimento, alimenta um ciclo de desgaste. Novis também chamou atenção para a persistência do assédio moral e sexual nos ambientes corporativos, que contribui para uma saúde mental fragilizada.

Finalmente, no âmbito político, a psicóloga levantou uma questão fundamental: quem cuida de quem cuida? “A prevenção do burnout feminino exige mudanças estruturais, como a implementação de políticas públicas voltadas para o cuidado, expansão da oferta de creches, licença parental compartilhada e igualdade salarial”, enfatizou. Essas ações são essenciais para criar um ambiente de trabalho mais saudável e inclusivo.

Novis também abordou a exaustão enfrentada por profissionais da saúde, que lidam com a precariedade de infraestrutura e condições de trabalho difíceis, além da pressão por um desempenho constante. “Estamos testemunhando uma cultura tóxica onde muitos se orgulham de trabalhar longas horas, mas isso é insustentável e prejudicial”, alertou.

Em um cenário em que dois terços dos pacientes com Doença de Alzheimer são mulheres, é vital destacar que existem 14 fatores de risco modificáveis que podem prevenir até 45,3% dos casos de demência globalmente. No Brasil, esse número salta para impressionantes 59,5%. Esses fatores incluem desde a educação até o controle de condições de saúde como hipertensão e diabetes, e ressaltam a importância de um olhar atento à saúde mental e física das mulheres, que frequentemente são as mais afetadas por essas questões.

Crédito da imagem: Afastamentos por burnout crescem mais de 800% em quatro anos